Investimentos

Quanto do seu rendimento sobra depois da inflação e do imposto: a conta do juro real

O Copom se reúne em 15 e 16 de setembro e a taxa de juros volta ao noticiário. O número que decide o seu poder de compra, porém, é outro, e ele não aparece no anúncio da aplicação.

Duas mulheres conversando e rindo ao pé de uma escada rolante numa estação de metrô, uma delas com uma sacola de feira

Imagine uma escada rolante que desce enquanto você sobe os degraus. Você se mexe, se cansa, chega mais alto. Só que o chão também anda, no sentido contrário. No fim do esforço, o que interessa não é quantos degraus você pisou, e sim quantos você subiu de verdade.

É mais ou menos isso que acontece com o dinheiro que você deixa aplicado. Em 9 de setembro de 2026, o CDI, a taxa dos empréstimos que os bancos fazem entre si de um dia para o outro e que serve de régua para a maioria dos CDBs, estava em 13,90% ao ano, segundo o Banco Central. Parece muito, e é mesmo um número alto. Mas entre esse anúncio e o que sobra no seu bolso existem dois degraus que descem: o imposto e a inflação.

Se você olha o extrato, vê o rendimento bruto e comemora, está medindo a coisa errada. Não por otimismo, e sim por falta de uma conta de três linhas que quase ninguém ensina.

O número que todo mundo vai citar nesta semana

O Comitê de Política Monetária do Banco Central, o Copom, se reúne em 15 e 16 de setembro de 2026 para decidir a taxa Selic, que é a taxa básica de juros da economia, a referência que puxa o preço de quase todo empréstimo e de quase toda aplicação de renda fixa no país. Ela está em 14,00% ao ano desde 6 de agosto de 2026, segundo a série histórica do próprio Banco Central.

No boletim Focus de 4 de setembro de 2026, em que o Banco Central reúne as projeções de mais de cem instituições do mercado, a mediana apontava 13,75% para essa reunião. Vale a ressalva óbvia: projeção não é decisão, e quem decide é o Copom, na quarta-feira.

Esse número, seja qual for, é o que o noticiário vai repetir. Ele é uma taxa nominal, ou seja, o número de fachada, antes de qualquer desconto. E o desconto vem em dois pedaços.

O primeiro pedaço fica com a inflação

Quando os preços sobem de forma generalizada e o mesmo dinheiro passa a comprar menos, isso é a inflação. No Brasil, a medida oficial dela é o IPCA, calculado pelo IBGE. Nos doze meses encerrados em julho de 2026, o último dado fechado disponível, o IPCA acumulou alta de 4,44%.

Aqui entra o conceito que dá título a esta conversa. O juro real é o que sobra do rendimento depois de descontar a inflação do período. É o degrau que você subiu de verdade na escada rolante. O resto foi só acompanhar o chão andando.

Se uma aplicação rende perto de 13,9% e a inflação roda perto de 4,4%, o ganho real bruto fica em torno de 9% ao ano. Ainda é bastante. Mas a conta não acabou.

Detalhe dos degraus metálicos de uma escada rolante descendo, com os pés de uma pessoa entrando no quadro

O segundo pedaço fica com o imposto

Na maior parte da renda fixa, aquela em que você empresta dinheiro a um banco ou ao governo e combina desde o início a regra de quanto recebe de volta, o imposto de renda incide só sobre o rendimento, e só quando você resgata. A alíquota cai conforme o tempo que o dinheiro ficou parado, seguindo a tabela do artigo 1 da Lei 11.033, de 2004, que continua em vigor.

  • Até 180 dias: 22,5% sobre o rendimento.
  • De 181 a 360 dias: 20%.
  • De 361 a 720 dias: 17,5%.
  • Acima de 720 dias: 15%.

Repare no que essa tabela está dizendo: o tempo, sozinho, já é um desconto. Resgatar no oitavo mês em vez de no décimo terceiro custa 2,5 pontos percentuais a mais de imposto sobre o que você ganhou.

A conta completa, com números pequenos

Suponha R$ 1.000 num CDB que paga 100% do CDI, e imagine que a taxa de 13,90% ao ano ficasse parada por exatamente um ano. Ela não fica parada, e já voltamos a isso.

  • Rendimento no papel: R$ 139.
  • Imposto de renda, faixa de 17,5% por passar de 360 dias: R$ 24. Sobram R$ 115.
  • Inflação de 4,44%: o carrinho de compras que custava R$ 1.000 passa a custar R$ 1.044.

Resultado: você termina com R$ 1.115 na conta, e esse dinheiro compra o equivalente a R$ 1.067 de um ano atrás. O ganho real foi de cerca de R$ 67, ou 6,7%. Dos 13,9% do anúncio, menos da metade virou poder de compra.

Para efeito de comparação, a poupança rendia 0,6717% ao mês em 9 de setembro de 2026 para os depósitos que fazem aniversário naquele dia, segundo o Banco Central, algo perto de 8,4% ao ano se essa taxa se repetisse doze vezes. Ela não paga imposto de renda, o que ajuda, mas o ganho real, com a mesma inflação de 4,44%, ficaria perto de 3,8%. A mesma conta de três linhas muda bastante o retrato de qual aplicação trabalhou mais para você.

Por que 6,7% ainda é uma boa notícia

Porque o tempo age sobre o número real, não sobre o de fachada. Um ganho real de 6,7% ao ano, mantido por dez anos, transforma R$ 1.000 em cerca de R$ 1.900 em poder de compra de hoje. Quase o dobro, já descontados a inflação e o imposto. É o efeito dos juros incidindo sobre os próprios juros, a bola de neve que desce a ladeira, medida na única moeda que importa, a do supermercado.

Duas ressalvas honestas antes de você fazer qualquer conta com o seu dinheiro. A primeira: a taxa do CDI não fica parada, ela acompanha a Selic, e se o Copom seguir cortando os juros, o rendimento de uma aplicação pós-fixada, aquela que acompanha a taxa do dia, cai junto, mês a mês. A simulação acima congela o cenário para caber numa conta de cabeça, e a realidade não congela. Rentabilidade passada não garante resultado futuro.

A segunda: renda fixa não é sinônimo de risco zero. Um CDB depende de o banco emissor honrar o pagamento, e a proteção do Fundo Garantidor de Créditos tem limite. Um título público prefixado pode valer menos do que você pagou se for vendido antes do vencimento. Nada disso é recomendação de compra ou de venda, que depende do perfil e do momento de cada pessoa. É só a informação que você precisa para comparar o que já tem.

O que fazer com isso ainda hoje

Pegue o extrato de uma aplicação sua e responda a três perguntas: quanto ela rende ao ano, há quanto tempo o dinheiro está lá, e qual faixa da tabela do imposto ele vai pegar no resgate. Com essas três respostas e o IPCA dos últimos doze meses, você chega ao juro real dela, e passa a comparar aplicações pelo que elas entregam de verdade, não pelo número do folheto.

O trabalhoso não é a conta, é juntar informação espalhada em quatro aplicativos de banco. Reunir contas, aplicações e datas num painel só, e é para isso que serve um app de organização financeira como o Fôlego, deixa esses três dados à mão no dia em que você quiser refazer a conta.

Mini-glossário

  • Selic: a taxa básica de juros da economia, definida pelo Copom a cada 45 dias, que serve de referência para o resto do mercado.
  • CDI: a taxa dos empréstimos de um dia entre bancos, que anda colada na Selic e é a régua da maioria dos CDBs.
  • IPCA: o índice oficial da inflação no Brasil, calculado pelo IBGE.
  • Taxa nominal: o rendimento anunciado, antes de descontar inflação e imposto.
  • Juro real: o que sobra do rendimento depois de descontada a inflação do período.
  • Tabela regressiva: a regra em que a alíquota do imposto de renda cai de 22,5% para 15% conforme o dinheiro fica mais tempo aplicado.

Fontes

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Juro real: quanto sobra do rendimento depois da inflação e do imposto | Fôlego